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Não, mas agora a sério...

Estava a gozar.

Não, mas agora a sério...

Estava a gozar.

19.Jul.18

Sobre os perdidos da baixa

Questiono-me, muitas vezes, sobre quem são, ou melhor, quem foram e de onde vieram todas aquelas pessoas que deambulam nas ruas sem nada definido. E não, não me refiro à população normal que anda como se estivesse formatada, isso seria demasiado profundo para integrar um post meu. Refiro-me aquele pessoal que, a partir das 19h integra a baixa de Coimbra ou anda pelas esplanadas a cravar cigarros, moedas de 20 cent, ou então a cravar 30 seg de atenção às suas filosofias de vida:

 

"Vocês acham que sabem tudo, mas não sabem nada."  Senhor perdido na esplanada do cartola,  2018

 

 

"Vocês precisam de sair para ver o mundo, têm que se abrir, saiam daqui" Pret... senhor negro perdido na praça, 2018

 

 

"Sou uma nuvem passageira que com o tempo se vai, um cristal bonito que se quebra quando cai" JP, 2017

 

 

"Fui comprar talhas porque assim, quando vejo cigarros no chão, enrolo-os e fumo-os... o que recebo não chega para tudo" senhora arrumadora de carros na Gulbenkian, 2018

 

 

Para quem gosta de poetas e trovadores Coimbra é a cidade. Dêem um passeio (acompanhados) pela baixa ao anoitecer e verão a quantidade de artistas vividos por lá prostrados. Verdadeiros génios, diria eu! Um senhor que por lá anda, em particular, fala com as pessoas a declamar, a rimar, a dizer coisas bonitas e sem sentido. Um bêbedo perdido, mas um bêbedo impressionante. Se deram um passeio pelos os bares da alta também obervam grandes artistas... mas esses só calados é que eram poetas. 

 

Alguém muito famoso que eu não sei quem é, já deve ter dito que o mundo pertence aos loucos. Eu acrescento: e aos que gostam de os ouvir. Eu integro-me nesse grupo. Admito que por vezes apetece-me dizer "Ai é? conte-me mais. Qual é o sentido da vida?". No entanto, nunca o faço porque na maior parte das vezes as pessoas estão demasiado perturbadas ou drogadas para entenderem sequer a minha pergunta. Ou então porque tenho medo de ficar sem a carteira ou ainda porque não tenho interesse em comprar haxixe. Mas tenho curiosidade em saber o que pensa alguém que parece não pensar em nada. Anda à deriva, como que perdido, mas ao mesmo tempo seguro de si. São enxutados, enxovalhados, mas tão-se bem a cagar. Não será essa a forma correta de viver? 

 

 

 

É curioso que os achemos perdidos, quando na verdade, eles parecem saber bem o que querem e o que importa... que é nada. Na altura só interessam aqueles 20 cent (já agora, alguém que me explique porquê deste valor, já que aqui os matrecos custam 50) e o amanhã logo se vê.

 

Não sabem a quantidade de gente que eu conheço que parece bem encaminhada a estudar um bom curso, a ter oportunidade de um futuro melhor, com uma situação familiar estável, mas que anda completamente perdida na vida. E é com esses que, por vezes, observo os perdidos sociais e deteto as semelhanças connosco, jovens do qual se espera que correspondam a expectativas criadas por todos, menos por eles próprios. Isto foi deep.

 

Portanto eu questiono-me: será que algum deste pessoal estava também bem encaminhado na vida e fritou a pipoca com a pressão? É que juro, quando estamos em época de exames, com poucas horas de sono e quilos de pressão em cima, aquele tipo de vida é aliciante... a liberdade, o não ter nada para se preocupar nem fazer. E é assustador sair à noite e ver aquele amigo/a, cuja vida não anda a correr muito bem, a encharcar a vela em álcool e debitar filosofias baratas, e notar semelhanças com o cinquentão a falar sozinho na rua e a fumar beatas do chão. Há muito talento perdido na noite, eu garanto...